Morre aos 78 anos o escritor salgueirense Raimundo Carrero

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A literatura brasileira perdeu um de seus maiores e mais viscerais expoentes. O escritor e jornalista Raimundo Carrero faleceu na madrugada desta terça-feira, 16 de junho de 2026, no Recife, aos 78 anos. Natural de Salgueiro, no Sertão Central de Pernambuco, o autor enfrentava um tratamento contra o câncer.

A notícia foi confirmada pela família e pela Academia Pernambucana de Letras (APL), onde o escritor ocupava a cadeira de número 3 desde 2004. Em uma trágica e poética coincidência apontada pela APL, Carrero partiu exatamente no dia em que seu grande amigo e mentor, Ariano Suassuna, completaria 99 anos. O velório será realizado na sede da própria Academia.

Do Sertão para o Mundo: A Trajetória de um Devoto da Palavra

Nascido em Salgueiro em 20 de dezembro de 1947, Raimundo Carrero de Barros Filho passou a infância no sertão antes de se mudar para o Recife na adolescência, onde estudou no Colégio Salesiano e cursou Ciências Sociais na Universidade Federal de Pernambuco (UFPE).

Sua carreira foi marcada por uma dupla jornada de extremo sucesso: o jornalismo e a literatura.

  • No Jornalismo: Atuou por 25 anos no Diario de Pernambuco, exercendo papéis cruciais como crítico literário e editor-chefe de redação. Recentemente, havia retornado ao jornal com uma coluna cultural aos finais de semana.

  • Na Gestão Cultural: Trabalhou ao lado de Ariano Suassuna no Departamento de Extensão Cultural da UFPE e integrou ativamente o Movimento Armorial na década de 1970, que buscava criar uma arte erudita brasileira a partir das raízes populares do Nordeste.

  • Formador de Talentos: Carrero também era amplamente reconhecido por sua generosidade intelectual. Por décadas, suas famosas oficinas de criação literária formaram e lapidaram gerações de novos escritores pernambucanos.

Importância Literária e a Estética do Impacto

Carrero não escrevia para confortar; escrevia para chocar e fazer refletir. Sua literatura é profundamente marcada pelo exame da decadência social e familiar, pelos conflitos religiosos, pela loucura e pelas paixões humanas mais cruas. Ele conseguiu universalizar o Sertão, despindo o regionalismo de clichês e transformando o cenário árido em um palco de tragédias clássicas e dilemas existenciais profundos.

"Construí uma obra. Fiz o que quis. Eu me programei para ser escritor na vida, e raramente um brasileiro dá certo como escritor. Eu consegui", declarou Carrero em uma de suas entrevistas marcantes ao Paiol Literário.

Obras Consagradas e Premiações

Ao longo de sua jornada, o romancista publicou mais de 15 livros, teve obras traduzidas no exterior (como na França) e acumulou as honrarias literárias mais cobiçadas do país:

  • As Sombrias Ruínas da Alma (1999): Obra impactante que lhe rendeu o prestigiado Prêmio Jabuti.

  • A Minha Alma é Irmã de Deus (2009): Considerada por muitos sua magnum opus, a obra foi laureada com o Prêmio APCA, o Prêmio São Paulo de Literatura e o Prêmio Machado de Assis da Biblioteca Nacional.

  • Condenados à Vida (2018): Caixa definitiva lançada pela Cepe Editora que reuniu sua célebre tetralogia — composta por Maçã Agreste (1989), Somos Pedras que se Consomem (1995), O Amor Não Tem Bons Sentimentos (2008) e Tangolomango (2013) —, definida por ele como uma corrosiva crítica à decadência da elite nordestina.

  • A História de Bernarda Soledade: A Tigre do Sertão (1975): Um de seus primeiros e mais marcantes sucessos, fortemente ligado à estética armorial.

Além de sua produção ficcional, Carrero também influenciou a cultura popular urbana do Recife: nos tempos de jornalismo, ele ajudou a popularizar a famosa lenda urbana da "Perna Cabeluda", mito que recentemente voltou aos holofotes no cinema nacional.

Author
Thiago Lima

Thiago de Lima Silva, natural de Salgueiro-PE, tem 33 anos. Iniciou no Rádio aos 17 anos de idade.

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