O projeto parte do entendimento de que o acesso aos livros e ao diálogo com a produção literária pode contribuir para o desenvolvimento do pensamento crític
A literatura tem se consolidado como uma aliada no processo de ressocialização de pessoas privadas de liberdade. Com essa proposta, o projeto Reescrevendo Novos Caminhos, que promove encontros entre escritores e apenados nas unidades penais, esteve nesta quinta-feira (30) no Presídio Advogado Brito Alves (PABA), em Arcoverde, levando o músico e escritor Cannibal para uma roda de conversa. Para um grupo atento, ele falou sobre a sua trajetória e de como a literatura impactou sua vida. O projeto é uma iniciativa da Companhia Editora de Pernambuco (Cepe), em parceria com a Secretaria de Administração Penitenciária e Ressocialização (SEAP), e já teve edições no Centro de Observação e Triagem Professor Everardo Luna (Cotel), Penitenciária Juiz Plácido de Souza (PJPS), com cronograma para outros estabelecimentos prisionais.
O projeto parte do entendimento de que o acesso aos livros e ao diálogo com a produção literária pode contribuir para o desenvolvimento do pensamento crítico, da reflexão sobre a própria trajetória e construção de novas perspectivas de vida. Durante os encontros, os autores da Cepe compartilham suas experiências, apresentam suas obras e discutem temas relacionados à literatura, à cidadania, à educação e à superação de desafios. Esse contato direto aproxima os participantes do universo dos livros, tornando a leitura uma experiência inspiradora. A partir desses encontros, os apenados são estimulados a ler o livro do autor convidado e a produzir um texto dentro da proposta do programa de remição de pena pela leitura, que assegura a redução de quatro dias na pena total.
Com uma população carcerária de 1.500 pessoas, o Presídio Advogado Brito Alves conta com uma uma série de atividades de incentivo à leitura a partir da Escola Estadual Dircélio Ferreira de Paiva Júnior, que tem com 330 alunos dos ensinos fundamental e médio. “A ressocialização só pode acontecer a partir da transformação de cada pessoa. Tudo que agrega força para esse processo de reintegração, a gente abraça com carinho. Estamos muito felizes em receber Cannibal e o projeto Reescrevendo Novos Caminhos em nossa escola”, assegurou a gestora educacional, Ivaneide Mangueira.
O bate-papo aconteceu na biblioteca, espaço inaugurado no ano passado. Cannibal falou sobre como foi crescer no Alto José do Pinho, comunidade recifense que durante décadas foi estigmatizada pela violência, sua ligação com a música, a criação da Banda Devotos e o encontro com a literatura através do livro Música para o povo que não ouve, publicado pela Cepe Editora. “Aqui vejo pessoas parecidas comigo, pessoas negras, de periferia e que não tiveram muitas oportunidades. E é por isso que estou aqui porque além de ser músico, eu acredito no ser humano. Quando eu tinha 17 anos, achava que viveria até os 25, por causa das coisas que aconteciam ao meu redor. Hoje, aos 55 anos, falo sobre transformação social, que a arte salva e que a literatura abre caminhos”, destacou.
Ao longo das edições, o Reescrevendo Novos Caminhos vem estimulando conexões com a leitura a partir das rodas de conversa. Em Arcoverde, o encontro inspirou Arlindo Gonçalves a escrever uma poesia em homenagem a Cannibal que fala sobre renovação de sonhos e esperança. Também presente, o reeducando Marcos Ribeiro, dedicou um capítulo no livro que vem escrevendo - A vivência de um cárcere - ao músico e ao projeto. “Não vou esquecer desse grande momento. Por aqui, a leitura é tudo na vida da gente porque enfrentamos desafios, como a depressão. Acho que a literatura é o caminho para salvar muita gente”, assegurou.
Para o gerente de Educação e Esportes da SEAP, Jorge Henrique, o projeto reafirma o poder transformador da literatura na reconstrução de histórias. “Pernambuco foi reconhecido pelo Conselho Nacional de Justiça (CNJ) como quinto estado que mais cresceu na remição pela leitura. Isso só confirma a importância dos livros”, garantiu.
As próximas unidades penais que receberão o projeto são o Presídio de Vitória de Santo Antão, o Presídio Itaquitinga 1 e a Colônia Penal Feminina Bom Pastor.